Notícias

Campus Cruzeiro do Sul

Professor indígena do Ifac destaca importância da pluralidade no sistema educacional

publicado: 31/03/2026 18h06, última modificação: 31/03/2026 18h14
Clécio Ferreira Nunes Huni Kuĩ foi empossado como docente do Instituto Federal do Acre e irá atuar no campus Cruzeiro do Sul
imagens_materias_capa - 2026-03-31T155446.588.png

“Na minha vida acadêmica, desde o ensino fundamental até a pós-graduação, nunca tive um professor indígena. A maioria dos meus professores era branco ou pardo. Mas a partir do momento que passamos a ter professores indígenas, pretos, da comunidade LGBTQIAPN+, isso mostra um outro leque de possibilidades de trabalhar dentro de um sistema educacional em que essa pluralidade seja reconhecida e afirmada. Além disso, tem também a questão da gente se ver. Se ver em um lugar que, talvez, a gente nem imaginaria. Sou exemplo disso. Estou finalizando uma pós-graduação e nunca tive um docente indígena. Então, ser essa representação no espaço educacional, possibilita a outros jovens reconhecerem que também podem ocupar diversos espaços. Se o professor Muru está lá, eu também consigo”.

A fala acima é do novo professor do Instituto Federal do Acre (Ifac), Clécio Ferreira Nunes (Muru Inu Bake, na língua Hãtxa Kuĩ). O jovem, que é da etnia Huni Kuĩ, tem apenas 24 anos e tomou posse na última sexta-feira (27.03), como docente de Língua Inglesa, do campus Cruzeiro do Sul. Durante a cerimônia, Muru Inu Bake esteve ao lado de sua mãe, Francisca Ferreira (Kaiãny, na língua Hãtxa Kuĩ), que foi a primeira pessoa a saber de sua nomeação como professor da Rede Federal, ainda no mês de fevereiro.

imagens_materias_capa - 2026-03-31T160328.447.png   imagens_materias_capa - 2026-03-31T160317.888.png

“Me lembro a data e horário que soube da convocação. No dia 27 de fevereiro de 2026, às 2h da manhã, foi quando abri o Diário Oficial da União. Quando vi meu nome, fiquei muito feliz. Não esperava que estaria na lista de convocados. Fiquei muito, muito contente. Conseguir entrar numa instituição federal e seguir na carreira docente era um sonho. O concurso do Ifac foi o primeiro que fiz na área da docência. Quando acordei, pela manhã, a primeira pessoa a quem contei sobre a nomeação foi para minha mãe. Foi um momento de muita felicidade e festejos”, relembra o professor do Ifac.

A trajetória de estudos para o concurso do Ifac foi intensa, conforme conta Muru Inu Bake. O certame havia sido lançado em 2023, mesmo ano em que o jovem concluía o curso superior de Letras/Inglês, na Universidade Federal do Acre (Ufac). “Concluí minha graduação em 2023 e precisei fazer a colação de grau no formato especial, pois havia sido aprovado para um curso de mestrado que iniciaria já em 2024. E nessa mesma época estavam previstas as provas do concurso do Ifac. O tempo para me preparar para o concurso público foi bem curto, mas como tinha concluído a graduação a pouco tempo, ainda estava com os conteúdos frescos na memória”.

No concurso público, como concorria ao cargo de docente, além da prova objetiva, Muru Inu Bake também precisou realizar uma avaliação de desempenho didático. O teste é semelhante a uma aula, porém o candidato apresenta um conteúdo em específico para uma banca examinadora. Ali, é avaliado em relação ao domínio que tem do assunto e à adequação da sua abordagem metodológica. No concurso do Ifac, tudo precisava ser apresentado no tempo máximo de 50 minutos.

“Confesso que não estava mais animado para fazer a prova didática, mas veio o sorteio dos temas. Na época, eu participava de um grupo no WhatsApp de candidatos do concurso do Ifac. Quando aconteceu o sorteio das temáticas, pessoas de diversos lugares do Brasil começaram a enviar mensagens, compartilhando de onde estavam vindo, o quanto haviam gastado para realizar aquela prova. Ao ler aquilo, pensei: moro aqui, não terei tantos gastos com hospedagem e locomoção. Isso me deu ânimo para realizar uma das últimas etapas do concurso”, conta o professor.

   DSC_4632.JPG

Além de ser um marco em sua vida profissional, Muru Inu Bake destaca que sua posse também é sinônimo de responsabilidade. “Como professor da Rede Federal, espero contribuir, não apenas na minha área de Língua Inglesa, mas também trazer enquanto indígena, que está agora lotado no quadro efetivo de docentes de um Instituto Federal, representatividade. Como disse, não tive essa representação enquanto estava trilhando meu caminho acadêmico e, agora, espero representar isso para alguém. Espero também que, de forma positiva, outras pessoas indígenas me vejam como exemplo e possam trilhar seu caminho”.

Conforme os trâmites legais de concursos públicos, todos os empossados contam com um prazo para iniciar oficialmente as atividades como servidores. E é arrumando as malas e com o coração cheio de esperança, que o professor Muru Inu Bake embarca para Cruzeiro do Sul nesta terça-feira (31.03). A partir do dia 06 de abril, o jovem Huni Kuĩ entrará na sede do Ifac do Vale do Juruá, oficialmente, como professor de Inglês da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. “Estou muito feliz e sigo feliz até agora”.

Fotos: Arquivo pessoal e Adma Costa/Ifac